Pois é, se você não entendeu o nome do blog não se preocupe: mesmo que você entenda, não vai ligar o nome à pessoa...
Traduzindo: apesar de “Schönes Wochenende” significar “Bom fim de semana!”, isso ainda não explica sobre o que é este blog. Porque este blog não se prende a definições, ele não tem a mesma disciplina alemã de seu nome!
Terça-feira, 15 de fevereiro de 2011, 22h30. Assembléia Nacional francesa. O impossível aconteceu : no mesmo dia, dois deputados de partidos opostos, Hervé Gaymard do partido de direita liberal (UMP Savoie) e Marcel Rogemont do partido de esquerda socialista (PS, Ille-et-Villaine) conseguem a proeza de colocar discretamente na pauta da casa, que discutia a liberdade na internet e coisas do gênero, duas emendas idênticas...
Se você chutou que as emendas tinham a ver com Google, Facebook e agregados, errou. Mas afinal, que assunto é esse dessas emendas que é capaz de unir gregos e troianos ?!
Não poderia ser outro que a Louis Vuitton Foundation for Creation. As tais gêmeas que aliás, foram votadas e aprovadas em menos de três minutos, reconheciam a fundação como utilidade pública. Ah, la vie en rose !
Essa manobra política, curiosa por sinal, passa por cima do Tribunal Administrativo francês (TAF), que no dia 20 de janeiro de 2011, acabara de anular a autorização de construção do projeto. Pequeno problema : A construção já havia começado em 2008.
Agora que você já sabe à quantas anda a história, façamos uma breve viagem no túnel do tempo.
Recapitulando Em outubro de 2006, nascia a Louis Vuitton Foundation for Creation (LVFFC), idealizada pelo PDG da LVMH, Bernard Arnault. Este último é ninguém menos que a personalidade mais rica da França, com uma fortuna estimada em mais de 22 bilhões de euros.
Croquis de Frank O. Gehry
Frank O. Gehry e Bernard Arnault. Imagem : Didier Ghislain
A LVFFC era inicialmente prevista para ser entregue no final de 2009 / começo de 2010. Como estamos no começo de 2011 e até agora não vimos nem a sombra da tal nuvem, podemos chegar à conclusão que, mesmo com um mecenato desses, o empreendimento vem atravessando fortes emoções.
O X da questão é que o edifício está localizado no Jardin d'Acclimatation, Bois de Boulogne, e era um local insconstrutível. Era, porque para se tornar construtível, bastou modificar o PLU (Plan local d'urbanisme). E hop ! Dito e feito. Em 2006, o PLU era modificado para permitir a construção na parcela visada pelo projeto.
Implantação. A Fundação fica bem no limite entre o Jardin d'Acclimatation e o Bois de Boulogne.
Fonte : http://acd.campus.ecp.fr/index.php
Mas... como todo bom projeto francês, a LVFFC não poderia deixar de suscitar a indignação de uma parte dos parisienses. Assim, organizou-se uma associação de proteção ao Bois de Boulogne afim de impedir a construção. Em junho de 2010, a associação conseguiu que as modificações do PLU fossem anuladas. Em seguida, a autorização de construção do projeto, que não estava mais em adequação com o PLU, teve de ser anulada pelo TAF. As obras, que na ocasião já se encontravam pela metade, tiveram der ser automaticamente paralisadas, deixando cerca de 400 operários técnicamente desempregados.
Basicamente é isso. Agora é só esperar as cenas do próximo capítulo, mas acho que essa história já tem um final [feliz pra quem?] definido.
The Project
Projetada por Frank O. Gehry e estimada em cerca de 100 milhões de euros, a fundação é inteiramente custeada pela Louis Vuitton Moët Hennessy (LVMH).
A Fundação será, do verbo futuro do indicativo [alguém duvida?], dedicada às artes contemporâneas. Além de galerias de exposição, ela contará ainda com auditório e restaurante.
O partido é em puro, tradicional e previsível estilo Gehry, mas inova na escolha do material. Desta vez, o vidro substitui o titânio : "uma nuvem em meio às árvores, um sonho, blablabla...", diz o arquiteto. Alan Riding, jornalista do New York Times, comparou o projeto à um inseto se rastejando em meio às arvores. Eu achei essa comparação sublime!, muito mais adequada que a própria justificativa do Gehry.Parece mesmo um gafanhoto albino !
Mas enfim, com tantas possibilidades de inspiração, tantas referências... o que eu teria gostado mesmo, teria sido a reinterpretação das belíssimas estufas parisienses... [Se bem que eu acho que no final das contas, a referência não deixa de ser pertinente.]
Jardin des Plantes
Serres d'Auteil
Os fins justificam os meios ? E aí, vale a pena passar por cima da lei, mesmo que seja num projeto de utilidade pública ?
Começou em 2002, com o projeto para loja de NY. Desde então, Koolhaas tem se tornado frequent-flyer na Prada. Seja pelo OMA ou pelo AMO, o holandês criou produtos diversos para a marca, desde cenários de desfiles a websites e lookbooks.
Prada Epicenter NY
Imagens: oma.eu
LOOKBOOK Primavera-Verão 2009
Imagens: oma.eu
LOOKBOOK Outono-Inverno 2010
Imagens: oma.eu
Em 2008, o arquiteto/jornalista/showman criou o Prada Transformer, um pavilhão temporário em frente ao palácio Gyeonghui do século XVI em Seoul para abrigar diversas atividades, como exposições, projeções de filmes e, claro, desfiles de moda. Formado por formas básicas adjacentes (um círculo, uma cruz, um hexágono e um retângulo) e envolto por uma membrana translúcida, de acordo com a finalidade o pavilhão era girado por gruas a fim de melhor acomodar o programa previsto.
Imagens: oma.eu
A última peripécia do OMA/AMO foi o clipe para a coleção de Verão 2011 (um barroco pop da melhor qualidade, se quiser ver mais clique aqui):
O blog foi contagiado pelo clima carnavalesco!
Sabe aquela sensação melancólica de fim de festa? Imagina depois do carnaval...
No próximo mês acontece no Rio um workshop promovido pela AA que busca propostas para reaproveitar o material utilizado pelas escolas de samba - super-ecologicamente-correto, né?
"Complementando os locais associados ao Carnaval de Rio de Janeiro, a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, o workshop “Matéria Prima” irá explorar esportes populares e programas culturais como uma forma de transformar ambientes urbanos e comunidades em estado precário e ajudar a garantir o legado destes eventos globais para a população. O workshop de 10 dias vai promover uma filosofia de design que media a sensibilidade global e local, entre as economias formal e informal, e os processos de fabricação de alta e baixa tecnologia. Em contraste com produtos importados e pré-fabricados, será empregada uma metodologia híbrida, utilizando matérias primas e outros objetos encontrados (inspirado na obra do artista Ernesto Neto e dos irmãos Campana) e aprimorando-os com técnicas computacionais novas de projeto e de fabricação.
O workshop ocorrerá quase 40 dias após o Carnaval, explorando e reutilizando os carros alegóricos, fantasias e parafernálias relacionadas, colaborando com várias escolas de Samba localizadas nos armazéns pós-industriais do porto do Rio, berço do Carnaval e do Samba. Este material reciclado será transformado utilizando processos de fabricação digital através de novos componentes produzidos digitalmente e, ao final, serão feitas intervenções em espaços públicos e no mobiliário urbano na zona do porto, para apoiar os eventos esportivos e culturais que envolvem a população local e complementem as construções em grande escala para os esportes olímpicos.
Aberto a designers de todo o mundo, o workshop incluirá modelagem paramétrica, instruções fundamentais em Rhinoceros e Grasshopper (incluindo GECO e Galapagos para simulação de conforto ambiental e processos evolutivos), Arduino e Processing, seminários e palestras de arquitetos, artistas, urbanistas e outros especialistas brasileiros e estrangeiros, e fabricação digital utilizando corte a Laser, usinagem CNC e máquinas de prototipagem rápida para produção de maquetes e, ao final, protótipos na escala 1:1 para apresentação final e instalação nos espaços do porto e do centro da cidade."
A história da Gaîté Lyrique é longa e conturbada. Tudo começou em 1759, com a trupe de Jean-Baptiste Nicolet no então chamado Théâtre des danseurs et sauteurs de corde (Teatro dos dançarinos e puladores de corda). Com o passar do tempo, a coisa foi evoluindo, o teatro ganhando público e até mesmo o reconhecimento de Louis XV. Em 1772, o rei autorizou a mudança do nome para Théâtre des Grands Danseurs du Roi (Teatro dos grandes dançarinos do rei).
Desde a inauguração, a Gaîté sempre foi dedicada às obras populares, em todos os sentidos. Em 1873, o célebre Offenbach assume a direção e monta Orphée aux Enfers, consagrando-se com um de seus maiores sucessos e mais de 200 representações. Muitos artistas de renome passaram por seu palco: a bailarina Isadora Duncan em 1909, o baixo-barítono eslavo Fiodor Ivanovitch Chaliapine, os Ballets Russos de Diaghilev entre 1921 e 1925, Luis Mariano em 1945... Até Johnny Halliday esteve por lá, quando ainda era um famoso desconhecido em 1959, mas deixa ele pra lá.
Originalmente, a sala à l'italienne, demolida nos anos 80 para dar lugar a um centro de lazer para crianças, tinha capacidade para 1800 pessoas. Foi uma das maiores perdas da cidade.
O edifício, construído entre 1862 e 1864 em estilo Renascença italiana, é de autoria de Alphonse Cuzin. A fachada é composta por 5 arcadas no térreo, formando o soubassement. Ele é sobreposto por outras 5 arcadas que formam a ordem jônica colossal, compondo a loggia do primeiro andar que acolhe o foyer. Em suas extremidadades, encontram-se duas esculturas : a primeira, situada à esquerda é obra de Amédée Donatien Doublemand e leva os traços de Scapin, personagem da comédia de mesmo nome de Molière. A segunda, à direita, representa o drama personificado por Hamlet, e é obra de Eugène Louis Godin. Os maiores nomes do teatro de até então são homenageados com medalhões pintados no foyer : Shakespeara, Molière, Racine, Beaumarchais e Schiller.
Infelizmente, incêndios, reformas urbanísticas do barão de Haussmann, abandonos, reaberturas e rehabilitações catastróficas fizeram parte dos inúmeros dramas protagonizados pelo edifício.
Orphée aux enfers - Cliché Bibliothèque Nationale de France
2011 promete !
O que sobrou do Théâtre de la Gaîté Lyrique acaba de reabrir novamente suas portas. O pretencioso empreendimento da Mairie de Paris, será dedicado às culturas digitais e músicas atuais. Um local inédito na cidade de exploração da arte, música, performances, design, moda e cinema. Tudo isso com uma boa dose de interatividade. Além de exposições, idéia é promover pelo menos 3 shows por semana, 120 performances e spectacles vivants por ano.
O projeto é de Manuelle Gautrand, arquiteta francesa nascida em 1961 e autora do famosíssimo projeto da Citroën na Av. des Champs Elysées.
Consta no programa :
- 2 sala de espetáculos. A principal com capacidade para 750 pessoas em pé e 300 sentadas e a menor com capacidade para 100 pessoas ;
- Auditório para 130 pessoas ;
- Salas de exposições temporárias ;
- Studios de criação e produção ;
- Centro de documentação ;
- 2 cafés ;
- Loja.
Imagem : Manuelle Gautrand
Imagem : Manuelle Gautrand
Imagem : Manuelle Gautrand
Como dá pra supôr no corte perspectivado, apenas a fachada e a primeira parte frontal são as partes históricas sobreviventes do edifício. Nela estão situados o vestíbulo e o foyer, que foram restaurados após inúmeras intervenções desastrosas.
Repare que as duas imagens acima mostram tratamentos diferentes dados ao foyer histórico.
A primeira é uma montagem digital, que deveria fazer parte do projeto do concurso. Nela, o tratamento do piso é mais audacioso, criando um espaço interativo. O provável acabamento original das paredes laterais, dotadas de lareiras esculpidas em mármore branco, era substituído por superfícies espelhadas, criando uma ilusão de profundidade infinita.
Felizmente, essas intervenções não devem ter passado pela inspeção dos monumentos históricos de Paris, já que o edifício é inscrito desde 1984 no Inventário (de Monumentos Históricos da França). Assim, os tratamentos mais contemporânes foram concentrados na parte contemporânea, posterior do edifício.
Como mostra a foto do projeto executado, o provável piso em parquet de origem foi mantido com algumas instalações isoladas, e na minha opinião mais adequadas, que me fazem pensar em pixels. Seriam referências às culturas digitais ?! Hehe. Também dá pra ver as paredes patinadas (acredito eu) em mármore avermelhado.
A parte inferior das colunas, verde na primeira imagem, apresenta um colorido alaranjado na foto. As sondagens de superfície (estratigrafia cromática) teriam revelado a cor original ? Infelizmente os princípios da restauração francesa raramente deixam aparecer os testemunhos das restaurações executadas com o passar do tempo...
Mas...Como tudo que é evento que se preze em Paris tem o seu catálogo publicado, vou ficar aguardando ansiosamente !
[Cá entre nós : Qualquer pessoa que tenha feito seu projeto final de graduação em um edifício histórico sabe que os espaços de ação não devem jamais competir com os espaços de contemplação ! Hehehe...]